sexta-feira, 30 de junho de 2023

 Eu quero fujir 

Não sei ao certo do que

Mas quero fujir

Quero fujir de tudo

Que me cerca 

Quero fujir de mim

Quero ser livre 

Para voar o voo da liberdade

Sem o peso do corpo que me encarcera

Quero subir tão alto quantos as águias

E descer tão profundo quanto as marianas

Quero ser livre 

Para que ainda não sei

Mas por certo tenho 

Que neste corpo (prisão) não estarei

Quero tocar o vento 

Como o vento me toca 

Quero fazer a terra me sentir 

Como a sinto em meus passos

Quero ser eu em espirito e em verdade

Livre da mentira

De viver o sopro de vida 

Visto que vida já não tenho 

E nunca tive 

O que tenho são ilusões

E todas elas se evadiram 

Da prisão que é meu corpo

Me deixando só

Para experimentar 

A realidade do não existir


                       Nenel Araujo

quinta-feira, 22 de junho de 2023

 O INSETO


Sobre a superfície líquida

Está ele a se debater

Lutando contra a morte

Apenas querendo viver

Toda sua luta é em vão

Seu corpo oscila

Como se parte fizesse

Daquelas oscilações

Criadas pelos pingos

Que intermitentemente

Sobre aquela superfície

Unia-se

E agora acho que morto jaz

Sobre a superfície líquida

E seu corpo baila

Para lá e para cá

Como determinam aquelas oscilações

Mas vejo que volta

A se debater como se

Da vida não tivesse

Ainda desistido

-O que será que se passava àquele momento

nàquela mente de inseto?

-Uma simples vontade

De desistir da vida ou

Uma simples vontade

De descansar

Para recuperar o fôlego

Que já parecia ser pouco?

Não! desistir da vida não

Os insetos não têm amor pela vida

Mas devem saber

O bastante sobre ela

Para preferir-la , peregrina-la

Em revés a morte

Continuo contemplando aquela superfície líquida

E vejo.

Ele seguindo curso retilíneo

Não uniforme

Tanto por sua força ao se debater (nadar)

Outros tantos

Pelas aquelas oscilações intermitentes

Então o inseto entra

No que para mim

Era um lugar seguro

Mas para ele

Apenas o reflexo de meu teto

Sobre aquele espelho líquido

Naquele instante

Como se seu instinto

De inseto o guiasse plenamente

Deu tudo de si

E debateu-se (nadou) incessantemente

Rumando firme

Naquela direção que pegara

Como se nela estivesse e estava

A sua própria salvação

Mas o caminho era longo para um inseto

E seu fôlego era pouco

Então sem pensar

Em distância e suprimentos

Nadou... nadou... nadou... nadou...

Até que não mais pode prosseguir

Seu corpo inanimado ficou

Sobre aquelas águas

Que com o corpo

Logo começaram a bailar

Um pra lá , dois pra cá

Dois pra cá , um pra lá

Como se estivessem dançando ao som daqueles pingos

A dança do ciclo vital

Que para o inseto , terminara

De forma líquida , com música e desespero.


Nenel Araujo

 Mas a aurora 

Nos campos de batalha 

Resplandece o rubro-carmim

Enquanto o crepúsculo 

Nos cega de todo sangue 

Que sangramos naqueles

Jardins

E como anjos e demônios

Matamos as certezas 

De nossos inimigos 

Todos eles refletidos

Em espelhos líquidos 

Espalhados nos jardins

E para acalmar

Todas as almas incrédulas 

Faz-se ouvir 

O som das cornetas

Mas já não é possível saber

Se pela alvorada 

Ou pelo crepúsculo!


Nenel Araujo

 Quando chegastes eu ainda era um menino

Tua presença se fez constante

Por anos em silêncio

Na primeira vez que se apresentaste 

Quase me levaste contigo na partida

Mas não pude ir

Então em silêncio ficastes 

Até apresentar-tes de novo

Agora com uma nova face e outras vestimentas

E és tão fascinante com este teu brilho de escuridão

Que apagas todas as incertezas da razão

E me ascende a certeza da partida

Para junto a ti 

Caminhar pelo desconhecido vale do fim


Nenel Araujo

 Na escuridão de meus dias

Eu sinto tuas mãos acariciarem-me o peito

Tu me afagas com o calor de tuas certezas

Tua voz me parece o canto dos corvos 

Tua presença hora como espreita

Hora como amante

Me faz ter as certezas que trazes 

E com um grito de silêncio

Suplico-ti que não partas sem que me leves contigo

Não importa para onde vaz 

De certo é um paraíso

Onde estarei livre da ilusão de realidade

E estarei deitado em teus braços 

Vivendo a certeza do não existir.


Nenel Araujo